Aumentar Fonte +Diminuir Fonte -“Dá-me de beber!”
É intrigante no Evangelho de João essas enigmáticas palavras que saem da boca de Jesus. Ele, verdadeiro Deus, tem sede e pede para uma samaritana – alguém que era desprezada pelos judeus – que lhe dê de beber. Mais intrigante ainda é perceber que essas palavras mais uma vez sairão da boca de Jesus no alto da cruz, quando grita: “tenho sede! (Jo 19,28)”. Deus tem sede de nós, para que nós tenhamos sede d'Ele.
O caminho quaresmal nos conduz dia-após-dia a perceber que o mistério da encarnação não é um evento que acontece somente no presépio. Antes, em cada gesto e palavra de Jesus há encarnação. E, no evangelho de João, de forma mais evidente, a encarnação acontece, de forma mais real e perfeita, na cruz. Com efeito, o Verbo feito homem participa da vida de toda a humanidade, mas se faz mais próximo, mais amigo, no sofrimento.
Na primeira leitura, retirada do livro do Êxodo, escutamos o lamento do povo que tem sede e, diante do sofrimento e da incerteza, começa a esmorecer na fé e a murmurar contra Deus. Esse mesmo povo havia, há muito pouco tempo, visto toda a glória de Deus que se manifestou na milagrosa libertação do Egito. Contudo, na primeira ocasião onde lhe é exigida a firmeza de sua fé, este povo sucumbe. Deus escuta o clamor do povo e dá-lhe água para matar a sede. Contudo, essa água mata uma sede material e que tão logo passe o tempo, outra vez se fará sentir.
O Evangelho, contudo, revela-nos algo mais profundo. A samaritana vai ao poço para buscar água. Ela procura, sedenta, por uma água que não sacia a sede. Isso, o próprio Jesus é quem declara ao afirmar: “todo aquele que bebe desta água terá sede de novo”. O que Jesus quer mostrar à samaritana (e a nós) que as realidades transitórias (prazer, dinheiro, poder, consumismo) são incapazes de satisfazer o coração. Elas podem ser saciadas por um tempo, mas assim como a sede, tão logo passem seus efeitos, elas se farão sentir outra vez.
Jesus, entretanto, oferece-lhe uma “água viva”, que uma vez bebida, não mais se sentirá a sede. Os santos Padres repetidas vezes identificaram essa água falada por Jesus com o sacramento do batismo. Com efeito, nele nos é dada, como puro dom, uma vida nova. Para isso, contudo, faz-se necessário renunciar à vida velha. Por isso Jesus revela o pecado da mulher dizendo: “vai chamar o teu marido”. A mulher, contudo, tinha vários maridos. O adultério, na sagrada escritura, é uma linguagem para se referir à idolatria. Ao dizer que a mulher tinha seis maridos, Jesus está se referindo à idolatria dessa mulher (que somos todos nós). Com efeito, por não conhecer a fonte de água viva e por não saber o que poderia matar a sua sede de vida, essa mulher depositou sua confiança em inúmeras coisas que não lhe poderiam garantir a felicidade (os seis maridos).
Na profissão de fé batismal renunciamos, por três vezes, ao demônio, às suas pompas e às suas obras. Que isso significa? Significa que doravante, nossa confiança estará toda em Deus. Por isso, abandonando os ídolos, banhados na água viva, recebemos uma vida nova, que é puro dom. É a água que Jesus prometeu a samaritana. E, doravante, não mais se precisará de um lugar para adorar a Deus, porque o Templo de Deus será o coração do fiel, pois nele habitará o Espírito Santo, que conduzirá o fiel a adorar em “espírito e verdade”.
Por isso, poderemos, com Paulo, na segunda leitura, exclamar que o “Amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado”. Este Espírito, inúmeras vezes, é identificado na Sagrada Escritura como uma fonte de água. Do alto da cruz, do peito aberto de Jesus, corre uma fonte de água pura, que é o Espírito Santo.
Ele tem sede no poço de Jacó, mas é ele quem dá a Samaritana a água da vida. Ele tem sede no alto da cruz, mas é ele quem nos dá, de seu peito aberto, a água do Espírito Santo. Ele tem sede de nós, para que nós tenhamos sede dele.
Frei Vinicius Pimentel Baquer, OP
Ordem dos Pregadores | Dominicanos
“Dá-me de beber!”
É intrigante no Evangelho de João essas enigmáticas palavras que saem da boca de Jesus. Ele, verdadeiro Deus, tem sede e pede para uma samaritana – alguém que era desprezada pelos judeus – que lhe dê de beber. Mais intrigante ainda é perceber que essas palavras mais uma vez sairão da boca de Jesus no alto da cruz, quando grita: “tenho sede! (Jo 19,28)”. Deus tem sede de nós, para que nós tenhamos sede d'Ele.
O caminho quaresmal nos conduz dia-após-dia a perceber que o mistério da encarnação não é um evento que acontece somente no presépio. Antes, em cada gesto e palavra de Jesus há encarnação. E, no evangelho de João, de forma mais evidente, a encarnação acontece, de forma mais real e perfeita, na cruz. Com efeito, o Verbo feito homem participa da vida de toda a humanidade, mas se faz mais próximo, mais amigo, no sofrimento.
Na primeira leitura, retirada do livro do Êxodo, escutamos o lamento do povo que tem sede e, diante do sofrimento e da incerteza, começa a esmorecer na fé e a murmurar contra Deus. Esse mesmo povo havia, há muito pouco tempo, visto toda a glória de Deus que se manifestou na milagrosa libertação do Egito. Contudo, na primeira ocasião onde lhe é exigida a firmeza de sua fé, este povo sucumbe. Deus escuta o clamor do povo e dá-lhe água para matar a sede. Contudo, essa água mata uma sede material e que tão logo passe o tempo, outra vez se fará sentir.
O Evangelho, contudo, revela-nos algo mais profundo. A samaritana vai ao poço para buscar água. Ela procura, sedenta, por uma água que não sacia a sede. Isso, o próprio Jesus é quem declara ao afirmar: “todo aquele que bebe desta água terá sede de novo”. O que Jesus quer mostrar à samaritana (e a nós) que as realidades transitórias (prazer, dinheiro, poder, consumismo) são incapazes de satisfazer o coração. Elas podem ser saciadas por um tempo, mas assim como a sede, tão logo passem seus efeitos, elas se farão sentir outra vez.
Jesus, entretanto, oferece-lhe uma “água viva”, que uma vez bebida, não mais se sentirá a sede. Os santos Padres repetidas vezes identificaram essa água falada por Jesus com o sacramento do batismo. Com efeito, nele nos é dada, como puro dom, uma vida nova. Para isso, contudo, faz-se necessário renunciar à vida velha. Por isso Jesus revela o pecado da mulher dizendo: “vai chamar o teu marido”. A mulher, contudo, tinha vários maridos. O adultério, na sagrada escritura, é uma linguagem para se referir à idolatria. Ao dizer que a mulher tinha seis maridos, Jesus está se referindo à idolatria dessa mulher (que somos todos nós). Com efeito, por não conhecer a fonte de água viva e por não saber o que poderia matar a sua sede de vida, essa mulher depositou sua confiança em inúmeras coisas que não lhe poderiam garantir a felicidade (os seis maridos).
Na profissão de fé batismal renunciamos, por três vezes, ao demônio, às suas pompas e às suas obras. Que isso significa? Significa que doravante, nossa confiança estará toda em Deus. Por isso, abandonando os ídolos, banhados na água viva, recebemos uma vida nova, que é puro dom. É a água que Jesus prometeu a samaritana. E, doravante, não mais se precisará de um lugar para adorar a Deus, porque o Templo de Deus será o coração do fiel, pois nele habitará o Espírito Santo, que conduzirá o fiel a adorar em “espírito e verdade”.
Por isso, poderemos, com Paulo, na segunda leitura, exclamar que o “Amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado”. Este Espírito, inúmeras vezes, é identificado na Sagrada Escritura como uma fonte de água. Do alto da cruz, do peito aberto de Jesus, corre uma fonte de água pura, que é o Espírito Santo.
Ele tem sede no poço de Jacó, mas é ele quem dá a Samaritana a água da vida. Ele tem sede no alto da cruz, mas é ele quem nos dá, de seu peito aberto, a água do Espírito Santo. Ele tem sede de nós, para que nós tenhamos sede dele.
Frei Vinicius Pimentel Baquer, OP
Ordem dos Pregadores | Dominicanos